Em uma celebração em memória dos Mártires da Argentina, o palestrante, repetiu várias vezes:  “TODO MÁRTIR É UM MISTICO”! Esta expressão ficou na minha mente imaginando o “lado” místico de Cleusa.

“Mística é a experiência de Deus”… “um conhecimento profundo, uma percepção do Eterno…”

A pessoa mística   vive em comunhão intima com Deus; está ligada a  Ele de tal modo que faz  sua,   a entrega de Cristo, “Eu vim para que todos tenham vida “…..

  Irmã Cleusa fez esta experiência; sua intimidade com o Senhor, a levou   a  testemunhar o amor até as últimas consequências, doando a  vida pelos irmãos, daí ser aclamada mártir, pelo povo.

As palavras de Cleusa revelam que a mística dela era UMA MÍSTICA SOLIDÁRIA.

Comprometer-se com o índio, o mais pobre, desprezado explorado, é assumir firme seu caminhar confiante num futuro certo, que já vai se tornando presente nas pequenas lutas e vitórias, o reconhecimento dos próprios valores e direitos,  busca de união e autodeterminação. Vale arriscar-se! ”

“…pensem em nossos irmãos APURINÃ, cuja terra a partir do Km 20 foi invadida e dividida pelo INCRA. É hora de fazer força junto à FUNAI em Brasília, para que a terra seja demarcada (aldeia Caititu em Lábrea)  …estamos aqui, ao lado dos irmãos INDIOS, despojados e desprezados …”

O místico ESCUTA

Escutar o grito do aflito, é sentir Deus possuindo o coração do místico, não o deixando acomodar-se.

Cleusa escutou “Eles estão precisando”, escutou   o grito dos pobres:  encarcerados, enfermos, cegos, idosos, hansenianos, menores de rua, índios…

O místico VE

 Cleusa   viu o Crucificado  no rosto dos excluídos  nas curvas dos rios, no ribeirinho explorado…

O místico SILENCIA para deixar Deus falar…

Cleusa dizia que “o silencio é uma virtude, é algo muito precioso para o ser humano. É escutando como se aprende. É no silêncio que Deus nos fala de seu amor, de nossa responsabilidade como servos de Deus na construção de um mundo onde haja paz, justiça, amor…  O silêncio nos disciplina fazendo-nos esperar a resposta de Deus”

“Cleusa era Mulher de silêncio fecundo”

O místico se ENTREGA ao Amor

A mística promove uma entrega que culmina com um conhecimento de comunhão tão profundo de Deus, onde se percebe que já não se pode viver sem Ele, fora Dele. Esse estado de graça, cristifica o místico de tal sorte que viver é não estar em si, é ser com Cristo, é ser com o outro, com o pobre “ …Irmã Cleusa conseguiu traduzir por si mesma o que é próprio do  índio … ela se tornou uma com os  outros … a entrega da irmã Cleusa foi  sem limites … E nessa falta de limites, no bom sentido, levantar-se a qualquer hora, ir em  qualquer momento, em qualquer lugar … isso  mexeu o coração do próprio índio … Hoje Cleusa não pertence apenas à Congregação, à Igreja; Cleusa pertence ao mundo, especialmente aos indígenas  … ”

Um místico, uma mística, não se compreende, apenas  se admira. “Quando entrei na Congregação Cleusa já estava ... Em suas andanças, ela passava por nossa casa … e o estilo físico dela já atraía a atenção de nós, formandas naquela época, porque havia algo diferente que brotava do SER dela … era realmente uma interioridade que florescia … “

“… Sentia algo diferente nela, como que um sinal!… Sua paz transmitia a presença de Deus, porque ela era uma mulher de Deus”…

Os místicos adquirem uma consciência plenamente humana onde tudo o que fala de compaixão, lança raízes em seus peitos. Aprendem o que significa uma obediência ousada, para não negarem a vontade do Senhor que lhes roubou o coração e dominou as suas mentes. Os místicos são as mãos de Cristo a tocar o mundo com a ternura de Deus. E assim foi Cleusa.

“… Cleusa  era a voz dos sem voz. Seu martírio foi o auge de toda uma história, vivida e assumida para a glória de Deus e o bem da Igreja … “

Os místicos  vão aonde muitas vezes resistimos ir.   Cleusa não vivenciou o perigo porque queria.  “Irmã, por favor não vá se meter com os índios – é perigoso…”     Ela enfrentou os maus e a maldade humana porque seu coração pulsava em favor do Reino; seu corpo frágil era revestido pelo   cuidado amoroso para cumprir aquilo que a fé verdadeira produz: obediência a Deus – o fruto maduro da consciência mística!

Para mim no despojado Deus está; risco grande, máximo amor eu quero dar”

 Ir. Maria Josefina Casagrande, mar

Comunidade “Irmã Cleusa “

Itabuna, Bahia, Brasil